Novembro 29, 2009

Abri os olhos e não vi teto, em vez disso algumas nuvens dissolvidas em diferentes tons de azul. As mãos tateavam o chão e disseram areia quando os dedos afundaram e voltaram à superfície logo em seguida. Deitada, virei de um lado a outro, os braços ajudaram a subir o tronco, até que pude me sustentar apenas com uma mão apoiada, as pernas dobradas. O punho livre, limpei-o na barriga e com ele cocei os olhos com força. Ao abri-los e com a visão embaçada por causa do exagero em esfregá-los, vi três estátuas imponentes, distantes porém em um ponto que ainda era possível notar detalhes. As obras eram de mármore e por isso pareciam frescas a ponto de pensar em correr e dar um abraço em cada uma, tirar a roupa e passar o corpo por elas fazendo uma dança desesperada. O sol, que procurava as estátuas pois as conhecia bem, nascia atrás delas, disputando a atenção de cada uma comigo. Surgia aos poucos, porém para mim, afoita, parecia correr. O vento ocupava os espaços vazios, como se quisesse transformar a imensidão ocre em ringue e o sol já era visto quase por inteiro. Agarrou as estátuas e eu, obstinada, via a luz sujando o mármore, deixando-o cinza e lavado. Eu, que me levantava, ajoelhei rendida espremendo os olhos e mostrando os dentes para ninguém, expressão que logo virou um sorriso choroso, bastou para isso o sol ocupar seu lugar de realeza, como quem diz as estátuas são empecilhos à luz, à redondecência diária que, naquele momento, era vital. Tentando ficar sobre os dois pés, até que consegui, me deslocando em passos alheios à qualquer linha reta. As estátuas, ainda escuras em sua face contraluz, tentavam laçar meus pés com sombras espichadas e minha cambaleonice ajudava na fuga. O sol subia, levando meu olhar e meus braços, dois ponteiros. Quando ele ficou a pino, senti um poder enorme. As três estatuas, novamente tão brancas, que acenavam em desespero, vi que não passavam de pedra forjadamente produzida, uma ilusão que mesmo eterna, é eterna, e esse é seu maior problema. Com os braços para o alto encho os pulmões de ar, tentando guardar qualquer um daqueles elementos comigo. O sol vai para as minhas costas e eu ainda me dirijo às estátuas, agora dramaticamente ligadas. Tão lindas aquelas meninas, três amigas conversando, antes imponentes. A luz se joga sobre elas, que parecem ruborizar quando se aquecem. Volto a colocar os joelhos no solo depois sento e coloco a cabeça entre eles, ignorando a areia que se espalha nos cabelos. Olho as estátuas, como estão delicadas. Como me assustam, quando tomam vida! Tiro a roupa, o sol também reflete na minha pele, sem que isso signifique nada. Quero aquele mármore, já morno. E então o sol, imagino que esteja enciumado porém no fundo sei que ele só faz seu trabalho, puxa a noite com um fio de nylon, um fugitivo que deixa pistas, o amante que deixa rastros propositalmente. O chão atrai minhas costas e eles se tocam. Choro, assistida pelas primeiras estrelas, que nunca estiveram tão pálidas. A areia mais fria do mundo, outrora um lençol esticado, me ata imóvel. A lua-holofote fiscaliza para que eu não saia correndo. Nem teria forças. As estátuas caem no esquecimento, choro por eles para saber depois por que chorei. E o sol já nem existe por enquanto.

Novembro 10, 2009

ser relapso

é um reflexo

do complexo

Novembro 6, 2009

Um cigarro para acalmar os ânimos, baforadas que descem ásperas pela garganta e saem num sopro, em nervos. Quando faz calor, parece que se bota pra dentro um deserto. Por que todo mundo tem essa ideia na cabeça, que fumar acalma? Fumar me faz bater os pés no chão e os dedos na mesa, em sequência, ora mais rápido, ora curtindo cada plec ou cada tuc, dependendo do material do móvel. Mas então quando estou prestes a bater o telefone, irritada, já penso em onde está o cigarro, o isqueiro, o cinzeiro. Bom fumar lá fora, cruzar e descruzar os braços. Bater cinzas, como é agradável quando elas caem, só não é melhor do que reuni-las no cinzeiro, branco, preto ou prata. E fumar não deixa de ser um mau-hábito, ao mesmo tempo em que não me deixa com consciência pesada nem vontade de esconder coisa alguma. Só me faz me irritar para me acalmar depois com um pequeno ego que levo à boca, e outros muitos que coloco pra fora como fumaça, enquanto resta um gosto seco na língua, e as lágrimas que se formariam nos olhos há alguns minutos esperaram um pouco e amoleceram, tornando sublime o que era um chilique hermético.

Outubro 22, 2009

Vontade não me falta, mas não posso jogar o celular longe. Com isso, provo para mim mesma que quem está do outro lado da linha não a assiste todos meus movimentos.

Buzina longa e constante.

Sabia que o carro não bateria. Choro e rio ao mesmo tempo. Foda-se. Devia ter jogado o celular longe. Desacredito da minha própria capacidade. Já passou uma hora, a lembrança da voz do outro lado da linha – não, o silêncio, é realmente como o de agora, do apartamento vazio no mesmo andar.

Televisão alta.

Desenho animado.

Não era.

O silêncio não era como o de agora, porque na minha cabeça tinham algumas conversas no MSN e o arrependimento repetido: eu pedi por isso, pelo silêncio, pela vontade de me segurar quando penso em gritar. Melhor seria ter jogado o celular longe antes de cogitar contrariar uma lei de trânsito – pfff – e assim evitar aquela buzina e qualquer xingamento baixo que fecha o cruzamento e acelera no sinal amarelo fingindo que não sabe que, do contrário, esperaria os três minutos do próximo sinal.

Porra!

Três minutos é muita coisa. Dá para falar de todos os sentimentos que tinha naquela hora em tão curto espaço de tempo. Agora, como é difícil, se esganiçar pra tirar algo que talvez signifique. Ruas de duas mãos – nunca o transito é igual nas duas. Só as esquinas são seguras.

Outubro 17, 2009

Botaram o que no copo

Que faz eu te jogar longe

Logo que acaba a dose

Mais uma, garçom

Para eu trocar

A namoradinha

Por uma que larga

Prioriza ao contrário

Do fundo do copo

Para sua cabeça

vai pra bandeja!

A bagagem que você leva amarrada

Nos pés

Outubro 17, 2009

Tanto plano que eu guardo pra mim

Você pra você

Marcado em calendário em mês

Talvez

Se não tivesse tanto espaço para

Silêncio

Você saberia fazer surpresas

E eu me surpreenderia

Com o que não é pior

Do que eu imaginava

Tanto você que eu guardo pro plano

Você pra mim

Seguro as descobertas invisíveis

Possíveis

Se minhas expectativas não ficassem

Suspensas

Eu viveria minhas coisas de sempre

Você seria repleto

Todo dia cheio daquilo

Corriqueiro, que chove

Tanto eu que você planeja pra mim

Guarda pra você

Passivo em esquecer que mudanças não têm dono

Abono

Se existisse como juntar o que está

Apartado

Eu não fugiria do que se desenha

Aquilo que é mais real

Que um habitat seu

Agosto 6, 2009

tartar

Tartar é meio cru
Briga do carnal
Com o que já
Não lateja
Nas vezes mais loucas
De buscas perdidas
tartarejo

Julho 2, 2009

De repente ficou inevitável puxar a toalha da mesa em que estava a relação de cristal

Foi sórdido e bonito

Taças-características – paradas no ar

Que irritam quando delas não escorre ou respinga

Que cortariam se a mão pudesse delas pousar próxima

Mas tudo está parado

Tudo que se guardava para um jantar a dois

Servirá os estilhaços de um para outro

Os rasgos de outro para um

Uma quebra seca que irrompe nos quatro ouvidos

Julho 2, 2009

Na sala vazia

Você

Já veio e já foi

Já-já vem

Com as marcas na

Parede e os passos

Que cessaram

E eu

Também fora

Da sala vazia

Não soube ver que

Há espera

Na tv que já foi

Ligada

E hoje, se fala

É comigo

 

A sala vazia

Nunca esteve vazia

Esteve sempre cheia

Do que tivemos

E fugiu

Você

Das novidades que traria

E não trouxe

Eu

 

Economia

De energia

A sala vazia

Cheia

Do que acontecia

Aconteceria

 

Vê se me

ausencia

Pra eu sentir

De novo

O que eu sentia

Quando eu

Desligava a TV

 

 

Mas se a

Sala

Nunca esteve

Vazia

Então eu já sinto

A presença da

Ausência

Fria

Julho 1, 2009

carna-valesco

A dignidade se escondeu

Na décima-segunda noite.

Quando a manhã veio

Não havia tijolo

Só areia molhada e pele oleosa