Abri os olhos e não vi teto, em vez disso algumas nuvens dissolvidas em diferentes tons de azul. As mãos tateavam o chão e disseram areia quando os dedos afundaram e voltaram à superfície logo em seguida. Deitada, virei de um lado a outro, os braços ajudaram a subir o tronco, até que pude me sustentar apenas com uma mão apoiada, as pernas dobradas. O punho livre, limpei-o na barriga e com ele cocei os olhos com força. Ao abri-los e com a visão embaçada por causa do exagero em esfregá-los, vi três estátuas imponentes, distantes porém em um ponto que ainda era possível notar detalhes. As obras eram de mármore e por isso pareciam frescas a ponto de pensar em correr e dar um abraço em cada uma, tirar a roupa e passar o corpo por elas fazendo uma dança desesperada. O sol, que procurava as estátuas pois as conhecia bem, nascia atrás delas, disputando a atenção de cada uma comigo. Surgia aos poucos, porém para mim, afoita, parecia correr. O vento ocupava os espaços vazios, como se quisesse transformar a imensidão ocre em ringue e o sol já era visto quase por inteiro. Agarrou as estátuas e eu, obstinada, via a luz sujando o mármore, deixando-o cinza e lavado. Eu, que me levantava, ajoelhei rendida espremendo os olhos e mostrando os dentes para ninguém, expressão que logo virou um sorriso choroso, bastou para isso o sol ocupar seu lugar de realeza, como quem diz as estátuas são empecilhos à luz, à redondecência diária que, naquele momento, era vital. Tentando ficar sobre os dois pés, até que consegui, me deslocando em passos alheios à qualquer linha reta. As estátuas, ainda escuras em sua face contraluz, tentavam laçar meus pés com sombras espichadas e minha cambaleonice ajudava na fuga. O sol subia, levando meu olhar e meus braços, dois ponteiros. Quando ele ficou a pino, senti um poder enorme. As três estatuas, novamente tão brancas, que acenavam em desespero, vi que não passavam de pedra forjadamente produzida, uma ilusão que mesmo eterna, é eterna, e esse é seu maior problema. Com os braços para o alto encho os pulmões de ar, tentando guardar qualquer um daqueles elementos comigo. O sol vai para as minhas costas e eu ainda me dirijo às estátuas, agora dramaticamente ligadas. Tão lindas aquelas meninas, três amigas conversando, antes imponentes. A luz se joga sobre elas, que parecem ruborizar quando se aquecem. Volto a colocar os joelhos no solo depois sento e coloco a cabeça entre eles, ignorando a areia que se espalha nos cabelos. Olho as estátuas, como estão delicadas. Como me assustam, quando tomam vida! Tiro a roupa, o sol também reflete na minha pele, sem que isso signifique nada. Quero aquele mármore, já morno. E então o sol, imagino que esteja enciumado porém no fundo sei que ele só faz seu trabalho, puxa a noite com um fio de nylon, um fugitivo que deixa pistas, o amante que deixa rastros propositalmente. O chão atrai minhas costas e eles se tocam. Choro, assistida pelas primeiras estrelas, que nunca estiveram tão pálidas. A areia mais fria do mundo, outrora um lençol esticado, me ata imóvel. A lua-holofote fiscaliza para que eu não saia correndo. Nem teria forças. As estátuas caem no esquecimento, choro por eles para saber depois por que chorei. E o sol já nem existe por enquanto.
Novembro 6, 2009
Um cigarro para acalmar os ânimos, baforadas que descem ásperas pela garganta e saem num sopro, em nervos. Quando faz calor, parece que se bota pra dentro um deserto. Por que todo mundo tem essa ideia na cabeça, que fumar acalma? Fumar me faz bater os pés no chão e os dedos na mesa, em sequência, ora mais rápido, ora curtindo cada plec ou cada tuc, dependendo do material do móvel. Mas então quando estou prestes a bater o telefone, irritada, já penso em onde está o cigarro, o isqueiro, o cinzeiro. Bom fumar lá fora, cruzar e descruzar os braços. Bater cinzas, como é agradável quando elas caem, só não é melhor do que reuni-las no cinzeiro, branco, preto ou prata. E fumar não deixa de ser um mau-hábito, ao mesmo tempo em que não me deixa com consciência pesada nem vontade de esconder coisa alguma. Só me faz me irritar para me acalmar depois com um pequeno ego que levo à boca, e outros muitos que coloco pra fora como fumaça, enquanto resta um gosto seco na língua, e as lágrimas que se formariam nos olhos há alguns minutos esperaram um pouco e amoleceram, tornando sublime o que era um chilique hermético.
Outubro 22, 2009
Vontade não me falta, mas não posso jogar o celular longe. Com isso, provo para mim mesma que quem está do outro lado da linha não a assiste todos meus movimentos.
Buzina longa e constante.
Sabia que o carro não bateria. Choro e rio ao mesmo tempo. Foda-se. Devia ter jogado o celular longe. Desacredito da minha própria capacidade. Já passou uma hora, a lembrança da voz do outro lado da linha – não, o silêncio, é realmente como o de agora, do apartamento vazio no mesmo andar.
Televisão alta.
Desenho animado.
Não era.
O silêncio não era como o de agora, porque na minha cabeça tinham algumas conversas no MSN e o arrependimento repetido: eu pedi por isso, pelo silêncio, pela vontade de me segurar quando penso em gritar. Melhor seria ter jogado o celular longe antes de cogitar contrariar uma lei de trânsito – pfff – e assim evitar aquela buzina e qualquer xingamento baixo que fecha o cruzamento e acelera no sinal amarelo fingindo que não sabe que, do contrário, esperaria os três minutos do próximo sinal.
Porra!
Três minutos é muita coisa. Dá para falar de todos os sentimentos que tinha naquela hora em tão curto espaço de tempo. Agora, como é difícil, se esganiçar pra tirar algo que talvez signifique. Ruas de duas mãos – nunca o transito é igual nas duas. Só as esquinas são seguras.
Outubro 17, 2009
Tanto plano que eu guardo pra mim
Você pra você
Marcado em calendário em mês
Talvez
Se não tivesse tanto espaço para
Silêncio
Você saberia fazer surpresas
E eu me surpreenderia
Com o que não é pior
Do que eu imaginava
Tanto você que eu guardo pro plano
Você pra mim
Seguro as descobertas invisíveis
Possíveis
Se minhas expectativas não ficassem
Suspensas
Eu viveria minhas coisas de sempre
Você seria repleto
Todo dia cheio daquilo
Corriqueiro, que chove
Tanto eu que você planeja pra mim
Guarda pra você
Passivo em esquecer que mudanças não têm dono
Abono
Se existisse como juntar o que está
Apartado
Eu não fugiria do que se desenha
Aquilo que é mais real
Que um habitat seu
Agosto 6, 2009
tartar
Tartar é meio cru
Briga do carnal
Com o que já
Não lateja
Nas vezes mais loucas
De buscas perdidas
tartarejo
Julho 2, 2009
De repente ficou inevitável puxar a toalha da mesa em que estava a relação de cristal
Foi sórdido e bonito
Taças-características – paradas no ar
Que irritam quando delas não escorre ou respinga
Que cortariam se a mão pudesse delas pousar próxima
Mas tudo está parado
Tudo que se guardava para um jantar a dois
Servirá os estilhaços de um para outro
Os rasgos de outro para um
Uma quebra seca que irrompe nos quatro ouvidos
Julho 2, 2009
Na sala vazia
Você
Já veio e já foi
Já-já vem
Com as marcas na
Parede e os passos
Que cessaram
E eu
Também fora
Da sala vazia
Não soube ver que
Há espera
Na tv que já foi
Ligada
E hoje, se fala
É comigo
A sala vazia
Nunca esteve vazia
Esteve sempre cheia
Do que tivemos
E fugiu
Você
Das novidades que traria
E não trouxe
Eu
Economia
De energia
A sala vazia
Cheia
Do que acontecia
Aconteceria
Vê se me
ausencia
Pra eu sentir
De novo
O que eu sentia
Quando eu
Desligava a TV
Mas se a
Sala
Nunca esteve
Vazia
Então eu já sinto
A presença da
Ausência
Fria
Julho 1, 2009
carna-valesco
A dignidade se escondeu
Na décima-segunda noite.
Quando a manhã veio
Não havia tijolo
Só areia molhada e pele oleosa