New Orleans, inverno
Quando vomitou na calçada sentindo que rugia do avesso, Tainá lembrou que passara pela mesma rua naquele dia mais cedo e contara três gorfos secos no asfalto. Não comentou nada, não queria parecer afeita às nojeiras para as amigas, mas pensava nelas quase que o tempo todo. As pessoas eram bonitas apesar de serem poços de vômito e gosma, surpreendia-se.
O que importava é que Tainá já não conseguia mais beber sem vomitar, mas agora ela vomitava num canto, se revolvia e limpava com a manga do casaquinho os olhos e se juntava às pessoas que nem a esperavam mais, tinham preguiça daquele escarceu, do barulho inevitável que Tainá fazia e era seguido pelo som do líquido entregue ao chão. Todos dobraram juntos a esquina e enfim viram três, quatro, quatrocentos e cinquenta e tantos neons e chamadas para uma perdição risível, olha esse panaca de conjuntinho, as vadias de celulite pulando, esse bar vazio com seus copos coloridos no balcão. Trash!
E a Tainá ja ria de olhos fechados, esticava a mão às garrafinhas e vez ou outra esbarrava em um braço, um ombro, mas ninguém se dava conta. Para ela, porém, eles eram pulsação, barulho de motor ligado, vida em um estado tão quente que, ao encostar em cada membro, cada órgão, Tainá parava por alguns segundos de ouvir o que os amigos conversavam. Gostava de se banhar de lua – pensou ela, como se estivesse também brilhando e não endoidecida de Jim Bean bebido, derramado e expulso. Olhou para cima, imaginando que se oferecia, que algo de profundo viria daquele ritual.
- Ih Tainá, não vai começar a uivar agora né?
Um portal se fechava, os neons sumiam. Silêncio da falta de comida, de qualquer coisa no estômago.
Aqui é a linha invisível, dizia o menor de idade, referindo-se a uma divisa imaginária, pouco conhecida, entre a área mais turística e os bares barra-pesada.
Agora é apertar o passo, dizia a preocupada.
Ninguém se mexia, iam com uma correnteza estranha, que desovava náufragos sob um letreiro de maça.
*****
Redenção
Salvos, hooray!
Oi, sou Martin Scorsese, disseram os óculos do barman à Tainá. Prazer ela respondeu, tentando convencer o dono dos óculos que seu dono é quem estava bêbado demais para enxergar e para conversar. Martin Scorsese se calou, deu vez ao barman que não sabia o preço de nada, serviu o que pode em copinhos de plástico sem se preocupar com as medidas das doses, ele queria mais era voltar para a sombra das placas de madeira: You broke it, you bought it, There’s ketchup on my ketchup. O resto eram um monte de tralhas.
Tainá e todos os outros sentaram nos banquinhos do balcão, uma japonesa e um cara de bobo ocupavam uma mesa, e eles estavam hipnotizados com a banda, que até agora era tão ignorada que ninguém sabia exatamente o que eles tocavam ou como, ou quem, ninguém especialmente os do balcão, rindo do Scorsese e de seu dono, prestava atenção na música até estarem instalados e serem servidos.
Tainá saia do banheiro, o menor de idade fumava um cigarro prepotent. Dum-dum-du-rum no baixo e todos levaram uma rasteira.
A mulher muito louca, com seus gritos e tocando a maior parte do tempo seu banjo. Na cítara uma homenagem jazzística aos monges budistas e ao valor que aquilo adquiriria na sua própria dissipação — baboseira. O do baixo com os olhos muito apertados era quase um espectador mais envolvido. Tem que ser assim! Estava tudo bem, aos ouvidos de Tainá e da turma, já tinham dado conta do recado.
O barba, grisalho e supremo dos instrumentos de sopro, não tocava muito que era para não perder o apoio do braço sobre um móvel, talvez um piano-artigo-de-decoração, conversando com todos, no mais preguiçoso jáiz que se podia dar conta.
Quando qualquer um se deu conta, Tainá ja dava os primeiros passos de dança. Ba-bara-baruba e ei, alguém se lembrou do eclipse?
Saiu do bar correndo com os amigos, com a banda, com todos exceto os idiotas das mesas. Tainá, em vez de fechar os olhos e entortar o pescoço como fizera antes, esperou a lua se mexer mais um pouquinho, para enquanto isso, com uma onda, mais uma, nadar até o fim da rua, trombando náufragos de outras marés, peixes e seres despescoçados. Sua trupe a seguiria, seja por curiosidade ou por falta de opção, e ela sabia que estavam logo atrás por causa do cheiro do cigarro prepotente do menor de idade. Todos riam alto de doer o maxilar. Uááááá.
Foi difícil nadar de volta e quando dariam de novo de cara com tantos painéis de maçã, somente frutas podres rolando pela calçada, o cenário era desolador. Não havia música nem a não-japonesa, dentro.
Todos eram mais alguns, esperando a lua sumir. Tainá só tinha começado a rir agora, segurava a barriga, misturava línguas e, incompreensível, terminava melancólica.
Ninguém se olhava.
Hoje, somos todos mais pesados – disse uma voz, a voz do barba, o barba dando pulinhos para não perder o equilíbrio quando um dos pés fugia do chão. Equilíbrio já estava em falta para o barba.
Tainá concordou, falou sobre as marés, tateando o ar como se estivesse em uma caixa, como se aquilo ilustrasse melhor. O menor de idade chegou para discordar, ela aproveitou e inverteu tudo, propositalmente, para se sentir mais esperta, na esperança de que aquele jogo de ideias, em primeiro lugar fizesse ela se lembrar do eclipse depois e, em segundo, que desse sentido para a lembrança após o registro.
Todo mundo entrou no bar abraçado, depois que o menor de idade passou os braços por Tainá. O eclipse ficava la fora e eles temiam não terem nada para comentar. O carinho substitui não a conversa, mas o constrangimento da falta dela. Ou então todos ali sabiam que a raridade do eclipse caberia bem nas rodas de amigos para comentar um dia, mas que era ímpossível falar sobre ele com quem tinha passado pela mesma experiência.
O barba logo se camaleou na madeira e a cautelosa ria muito do pessoal que entrava abraçado. E que afagos tão sinceros eram aqueles, reais porque vazios — pensava a cautelosa. Pois bem que no palco tinha uma outra mulher, com a voz encoberta pelo violão. A muito louca servia no bar e por não saber o preço dos drinks colocaca todos em sua conta. Scorsese e seu dono transitavam entre público e palco, sempre atrasados em suas reações. O do baixo, com os olhos apertados, colou no rosto de Tainá para se certificar da cara de nojo que ela fazia.
— Tenho duas filhas da sua idade, talvez você as encontre por aí, na estrada. Riu e foi para o palco, ora olhando para fora ora para cima como se o teto pudesse ficar transparente e do nada fosse possível ver o céu. Não fingia mais tocar, seus dedos eram como soldados abatidos sobre as cordas. As poucas notas vinham do barman, que usava a folga para manipular os espasmos de uma guitarra.
A muito louca gritava odes a William Blake enquanto os amigos desenhavam um leão em uma nota de um dólar. O menor de idade grampeou a nota da parede — Rawr! — antes de sair para olhar o céu. Nada de lua, só um buraco que ela deixava e as saudades que todos ja sentiam dela. Tainá vomitava na calçada, com medo de que a lua não voltasse, e para sempre ficassem mais pesados os colares, as correntes e a bebida no estômago, querendo que todos afundassem ali mesmo, num espetáculo infértil.
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viva! thanks!