O elevador tinha uma luz fria e um espelho manchado. Luz manchada e espelho frio. Uma grade que emperrava sempre no mesmo ponto e dizia. Me abre, me feche. Me empurre com força, me faça sumir. Do quinto andar vinha ele, com cheiro de sabonete, a camisa bege, o casaco marrom, o cabelo castanho muito penteado e esticado e molhado. Algumas gotinhas na testa escorriam e foram amparadas nas sobrancelhas, quando ele sorriu e espremeu os olhos.
Domingo à noite, homem de pasta. A pasta o define, ele sem ela não é nem homem, nem nada.
Me feche, me faça sumir, com as mãos muitos pelos e um braço pálido.
- Indo pro plantão?
Me explicou que passava em casa os plantões, acompanhando o berçário por webcams. Só ia até o hospital quando nascia um bebê com má-formação, ou em casos de aborto.
Me abre.
Era o térreo, chegamos. Ele iria ao subsolo, e acenou de leve quando passou por mim de carro. Acenei sem descruzar os braços, era frio. Enquanto eu saía de casa, começava uma vida defeituosa, marcada por aquele dia em que tinha garoado um pouco no fim da tarde. Sua má formação seria certificada por um médico que não se impressionava mais, o que diria a mãe?
E se ela tivesse abortado, que teria o médico a confessar sobre o natimorto? Na sua cabeça, o milagre da morte de um feto problemático talvez fosse ainda mais surreal que o do nascimento. Ou então o nascimento, por ser corriqueiro a seus colegas de hospital, não teria de mais enquanto nos defeitos residiria o divino, na justiça que a natureza faz com ela mesma, cega castigando aqueles que são pequenos demais para terem voz ativa em seus procedimentos.
Do médico, eterno salvador e milagreiro, restava a posição de observador privilegiado, do mais impotente dos atores.
Daquele que tanto tinha estudado, decorado ossos e músculos e sonhado em pendurar um dia o diploma no consultório, ficava um leão de chácara de um universo desastroso, em que o único sentido é aquele que passa pelo filtro dos laudos. E seria de sua autoria aquele que ecoaria enquanto durasse aquela figura e suas defeituosidades.
Na rua, uma mulher quase atropelada se jogava na calçada com os dois joelhos esfolados. O carro, após frear bruscamente, acelerou numa clara fuga.
Tentei ver a placa, mas perdi uma letra. Imaginei-a. E poucos segundos depois já não me lembrava se o Ford era prata ou preto.
Em volta, até as pessoas eram cinzas.
Assustada, a mulher não queria que ligassem para o resgate, nem para a polícia nem nada. Eu ja afirmava ter certeza da placa, e tremia. De pensar ter visto um atropelamento. Todos em volta pareciam brigar com a vítima, que se recusou até o fim a dar seu nome e só pedia para que abrissem espaço para chegar ao ponto de ônibus.
Mancando, acudida pelo marido que concordava com sua decisão. Dava para ver eles esperando, enquanto um dos que passavam ainda brigava com a polícia. Foi um crime como pode denunciar não acredito nisso processar é por isso que esse país ver só.
Não sabia se, como eu, todos se perguntavam como o motorista – alguns juram que era uma mulher – chegara em casa, se ela sabia que o atropelamento não tinha de fato, acontecido.
Uma semi-morte, uma semi-vida, esperando no restaurante com um incômodo que ainda não detectava era a primeira vez que me sentia acordada. Para isso sentir o osso do joelho tremer, tudo aquilo que é involuntário.
Eu não conheço meu próprio cheiro, e todas as vezes em que fumo demais penso na distância entre como me veem e quem está no espelho. Todas as vezes em que tremi e pode-se ver eu estava fingindo. Endotremo e é real. Endochoro e não faz sentido.
Em mim, a existência é contínua. Eu tenho um corpo para sustenta-la, uma constituição ou formação ou qualquer conceito de matéria diferenciada da essência que caiba. Sem o médico eu posso ser tanto pasta quanto gosma quanto falha quanto puro amor em forma de gente. Ele quem avalia e escolhe, e só por sair de casa para isso sua palavra tem mais valor.
É na rua que tudo muda.
exquisite
novembro 8, 2011 por thais lancman