Se eu não tivesse esquecido que tinha dinheiro na carteira e pegado o ônibus. Se eu não tivesse ficado com medo de descer a Augusta sozinha e pegado um taxi.
Era só um carro branco esperando alguém. Era eu, acenando para outro que vinha mais rápido, passou, veio o outro de trás, rastejante. O taxi trôpego parou à minha frente, entrei imaginando que do boa noite ele só ouvira noite mas podia supor a saudação. Alameda Casa Branca, só descer a Peixoto e pegar a Oscar Freire à esquer.
Filho da puta. Era o ônibus que cortava, serpenteando a avenida. Não sei o que esta acontecendo hoje. Eu recolhia a carteira e outras coisas que tinham caído da mochila, sem largar o celular. Essa hora, os ônibus ja não respeitam ninguém, e quis contar do tombo que quase levara para descer em frente o Conjunto Nacional, mas desisti.
Vou ter que benzer esse carro. E dava de novo a partida, tinha morrido na hora em que freou brusco. Hoje ja começou tudo errado.
O senhor começou agora? E aí não lembro o que ele respondeu mas tenho certeza que ele achou que eu achei que era novato e me senti culpada pra caramba por fazer ele pensar isso, mas juro que me referia àquela noite, até preparava perguntas sobre as madrugadas, e queria me explicar mas nem teria como, e também não tinha mais clima para saber sobre quem ele levava de onde e para onde e sobre o que conversavam.
Na tela do celular 23:13. Olha viu, ja não sei mais o que fazer.
Eu devia dar logo um tiro na minha cabeça. Nessa hora foi que eu fiquei com medo.
Acelerada forte borrando os garotos de programa do Dante.
Vou dar um jeito na minha vida.
Sinal fechado. Ele olhou pra mim com sua cabeça pequena. Barba feita, tudo pontudo. Não aguento a pressão do mundo. Não tinha calma, força, fé, aguente firme para fazer contrapeso à pressão do mundo.
Desce até aonde? Pode virar à esquerda na Oscar Freire.
É muita depressão.
Eu não acreditava em taxistas com depressão, mas não sabia há quanto tempo ele era taxista. Quando ele falou que era um homem bom, que tinha sido abandonado por um monte de gente, ou então tinha feito um emaranhado de abandonos entre seus parentes e respectivos cônjuges, eu achei mesmo que aquele papo era eu ouvindo errado uma voz de muito longe e de muita gente que ecoava desde aquele vidro quebrado, Igby e o pai falando e se repetindo
I feel this great pressure, coming down on me.
Isso é a coisa mais sincera que alguém já disse em alguma ficção, para mim.
O taxista era ficção, mas se era sincero tinha dúvidas. Tinha uma música sertaneja tocando alto e eu não a conhecia. Passando o casamento do meu irmão, pra não estragar a festa dele, eu resolvo isso.
E aí vi que era tudo palhaçada mesmo porque uma amiga que planejou o suicídio dizia que seria depois de vários aniversários, na véspera eu fiquei muito tensa e deve ter sido a única vez que pedi para o vazio que nada acontecesse e ganhei tranquilidade, porque na data mesmo eu nem lembrei e só me liguei uns dias depois. E ela tava viva.
Essa gente é tão pouco afoita que não tem nem cara de dizer a palavra.
Morte.
Pra quem ja deu tudo errado a vida é só a morte. Nessa hora ele olhava para o nada da rua.
Era hora de entrar na Alameda Casa Branca. 10 reais, uma nota de 50, não tenho troco. Nem senhora, nem moça, nem tudo de bom, só bati a porta com um já volto, que ele deve ter ouvido javol e não tinha opção além de esperar.
Em cima era ou 5, ou 20. Coloquei a nota maior num envelope achando que ela podia evitar um suicídio, não sozinha, mas com um bilhete Obrigada J e boa noite. Foi-se o dinheiro e o elevador até o térreo, foi-se o taxi pela rua escura pelo que eu pude ouvir. Esqueci de dizer que o taxi morreu antes de parar em frente ao prédio.
A lenda de não se noticiarem suicídios ainda é verdadeira. Minha amiga acaba de me mandar uma mensagem cobrando uma cerveja que nunca acontece. Eu não lembro sequer a placa do meu carro para fazer o cadastro do estacionamento, como é que vou pegar a do taxista. Não faz diferença mesmo. Mesmo, não faz diferença, o que eu preciso saber já sei.
Quando eu era mais nova imaginava sempre o meu enterro e esse pensamento me aterrorizou tanto que eu não consegui mais voltar a ele. Me acho tola por isso.
Tem gente se beijando na televisão, dois pernilongos zanzando pelo quarto e a voz do taxista parece nem mais existir. Ir embora pode ser sempre morte, estamos sempre morrendo uns para os outros. Ele nem precisava me falar de se matar, porque pra mim ele nem era.
E agora é, e não sendo vai me assustar com a ideia de deixar de ser.
Se não, só para mim será seu tiro naquela cabeça pequena, o estralhaçamento da sua orelha pontuda e mergulho em sangue genérico, tal qual os mosquitos chupam e vez ou outra conseguimos espatifar na parede, com pó de corpinho.